Há 20 anos fundamos (Érika Machado e Juliana Mafra) a Fabriquinha, que funcionava numa casa de fundos no bairro Floresta em Belo Horizonte. Com a Fabriquinha - nome influenciado pela Factory de Warhol e pela imagem de uma casa que solta fumaça - renunciamos a autoria individual e questionamos, com alegria, os valores da arte no consumível e consumido mundo contemporâneo.

Um dos nossos primeiros trabalhos, intitulamos Conjuntinho, com ele queríamos mostrar para quê servia uma pintura.

Por todo Conjuntinho passeavam jacarés verdes estampados sobre um fundo amarelo, o trabalho foi dividido em três partes: um pufe acompanhado de uma pintura, e que combinam muito bem; as Embalagens, roupas que nos tornam produtos mais atraentes; e as bonecas Érika e Juliana, acompanhadas de seus objetos pessoais, bolsa, vassoura, pá de lixo, caixa de fósforos, cigarro e Gertrudes, a galinha de estimação, tudo dentro de uma bela caixa com a marca da Fabriquinha.

 

Primeiro foram feitos a pintura e o pufe e inscritos em uma mostra. Como o trabalho não foi selecionado para ser exposto na mostra, resolvemos confeccionar as Embalagens, com elas o nosso corpo embalado seria livre para frequentar muitos lugares, e usamos no dia da abertura da exposição. Outra parte criada para o trabalho foi a confecção das nossas próprias bonecas.

 

* Embalagens: Fizemos dezenas de roupas e desfilamos com elas por aí, apareceram em filme, frequentaram galerias, foram à festas, ao shopping center, sorveteria e muitos outros lugares.

Em 2002 lançamos nossas próprias moedas, as Fabriquetas.

Foram feitas 50 moedinhas, todas modeladas por nós, cada uma destas fabriquetas tinha em um de seus lados pintado o número de série e no verso a marca da Fabriquinha, com elas saímos às compras, trocando-as por bens, serviços ou outros tipos de moedas. Assim adquirimos catálogos de exposição, revista, corte de cabelo, serviço de transporte, bola, manivela de pipa, lanches, uma pintura, entre tantas outras coisas. Mas é certo também que não conseguimos comprar com elas alguns brinquedos, passagens, casa própria e nem sorvete no Mc`Donald's.

Com as Fabriquetas  investigamos o valor do nosso trabalho: adorno, relíquia, arte, moeda corrente?

 

 

Um outro trabalho realizamos quando em 2003 a Galeria da Copasa aceitou nos emprestar - por meio de um edital - o seu espaço por um mês e dois dias. Para a abertura da exposição, levamos nossos brinquedos preferidos, um computador, uma máquina de costura, um rede, um pufe e uma pintura, papéis, muitos lápis de cor, tinta, tecido... enfim, demos uma arrumadinha na galeria para que durante este tempo pudéssemos ir lá diariamente para desenhar, pintar, costurar, cantar, receber os amigos, os fregueses, e fazer as coisas que tanto nos alegraram.

Às dezenove horas da segunda-feira descobrimos que a cantina da nossa escola não iria funcionar por três dias. Foi assim que resolvemos trabalhar no ramo da lanchonete. O trabalho aconteceu durante os três dias dias que a cantina da escola esteve fechada. Organizamos os nossos materiais e investimos 35 reais na compra do estoque. A especialidade da casa era o misto quente, mas os fregueses podiam encontrar também balas, chocolates, suco da Coca-cola, refrigerante, capuccino...

 

Às oito horas da manhã de terça-feira a Lanchonete Fabriquinha já estava funcionando e os fregueses consumindo. Por volta das dez horas, todo estoque já estava esgotado! A Lanchonete Fabriquinha sorteou para os seus fregueses uma linda bola de plástico. A contemplada, Fabíola posou para algumas fotos e respondeu a um questionário.

A lanchonete abasteceu nesses dias, os três turnos da escola, e obteve o lucro de quase 200%. Foi uma experiência positiva. Naquele momento, o ramo do misto quente tinha sido o mais promissor.